"Há muitos anos que me bato convictamente pela defesa dos direitos dos animais. Trata-se de uma quase militância (...). Enquanto jornalista, autarca e escritor, nunca deixei de ter essa preocupação e essa causa na minha agenda pessoal e cívica. Ajudei a criar e dirigi uma fundação para a recolha e tratamento de animais abandonados e tenho escrito livros em que os animais são, de facto, as personagens centrais. (...)
Haverá quem diga, sobretudo em tempo de aguda crise, que este grau de empenhamento é politicamente incorrecto, uma vez que há quase 300 mil pessoas em situção de pobreza em Portugal (...). Porém, sempre considerei que uma causa não é compatível com a outra e que defender os direitos de uns está longe de significar que se descurem os dos seres humanos. São práticas e causas absolutamente complementares.
Quando a crise social, económica e financeira se agudiza, aumentam exponencialmente os casos de abandono de animais de companhia, pois o cidadão mais desfavorecido deixa de ter condições materiais para os sustentar. Mas disso praticamente ninguém fala. Como também não se menciona o facto de, num quadro de crescente solidão urbana, a companhia de um gato ou de um cão ser o único apoio afectivo com que contam crianças, idosos e pessoas doentes há muito retidas nos seus lares. Esse facto deveria ser levado em conta pelos legisladores, que poderiam consagrar deduções fiscais para quem, pouco ou nada tendo, faz face a despesas pesadas com a alimentação e o tratamento veterinário dos seus animais de companhia, em muitos casos verdadeiros elementos insubstituíveis do agregado familiar.
Somos, para além disso, um dos países da União Europeia onde existem mais restrições à circulação, na companhia dos donos, dos animais de companhia, impedidos de entrar nos cafés, nos restaurantes ou nos transportes públicos.
A França foi pioneira nesta matéria, quando Napoleão era imperador, apesar de, sendo supersticioso, ele detestar gatos. Mas já o mercantilista Colbert tinha autorizado a presença desses felinos domesticados a bordo dos navios, não para fazerem companhia aos marinheiros, mas sim para destruírem os ratos que, por sua vez, davam conta das mercadorias.
Hoje, mais do que nunca, é urgente mobilizar consciências e vontades para se defender eficazmente os direitos dos animais, numa sociedade egoísta, desumanizada e ferozmente consumista. E que ninguém se iniba de abraçar esta causa só porque alguém lhe pergunta: "Então e as crianças com fome?" Claro que as crianças com fome continuam a ser uma prioridade absoluta, mas, para muitas delas, um gato ou um cão são o único amigo com que contam na solidão de lares gravemente carenciados.
Também por essa razão, há muito que deveria ter sido criado o cargo de Provedor dos Direitos dos Animais, para ajudar a dar luta a fenómenos intoleráveis como os combates clandestinos de cães e outras práticas repugnantes importadas de países com outros hábitos e práticas mais do que duvidosas, desumanas, cruéis e oportunistas.
Escreveu um dia o filósofo alemão Emannuel Kant que "podemos julgar o coração de um homem pela forma como trata os animais". Hoje, em Portugal, esse tipo de julgamento abriria as portas a severas formas de condenação. E ainda ficaria muito por descobrir e por condenar. Veja-se quem faz companhia a centenas de sem-abrio e perceber-se-á a importância vital que pode ter um animal de companhia, até para o proteger do seu enorme desamparo, seja de noite ou de dia.
Por mim, continuarei a bater-me por esta causa e tenho a convicção de que, no dia em que os políticos perceberem o seu alcance, justeza e humanidade, sem complexos ou cálculos excessivos, prestarão um útil serviço à comunidade e às suas próprias consciências, sempre tão despertas e mobilizadas para o imediatismo do que garante eleições muito mais do que gerações e justas razões."
José Jorge Letria, Jornal de Sintra
29 de Outubro de 2010
M.A.R.S
Quem somos?
- Ana. Rita. Sara.
- Lisboa, Sintra, Agualva, Portugal
- Projecto criado por quatro estudantes (nele trabalham agora três) do 12º ano de escolaridade a frequentar o curso de Línguas e Humanidades numa escola do concelho de Sintra, Escola Secundária de Ferreira Dias, que decidiram, no âmbito da disciplina de Área de Projecto, realizar, ao longo do ano lectivo, um projecto que visa a ajuda, a alteração e melhoração do dia-a-dia e da vida de animais abandonados e/ou maltratados e de famílias carenciadas. Acreditamos que, juntos, podemos fazer a diferença. Se ainda não fazes parte da solução, então fazes parte do problema!
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